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A Variação Linguística na Literatura

A Variação Linguística
Tarallo (1999) compara a variação linguística a uma situação de “competição”, em que a presença de um mediador é de vital importância para a resolução do conflito. O pesquisador sociolinguista assumirá essa posição e baseado em argumentos sólidos, irá “desmascarar” a assistematicidade do suposto “caos”.
Para desempenhar bem essa função, é necessário conhecimento das “adversárias”. Conhecendo o perfil individual das variantes, será possível avaliar os contextos que dão mais vazão a uma e outra. Difícil seria, no entanto, estabelecer uma abordagem fixa quanto aos problemas que envolvem a relação língua/sociedade, à luz da Sociolinguística ou mesmo da Etnolinguística – ciência que estuda as relações entre língua, cultura e sociedade.
Preti (2000) postula que o campo sociolinguístico constitui outra via da linguística descritiva, que retoma as várias oposições encontradas entre língua/fala, uniformidade/diversidade, simplicidade/complexidade, função/uso, fala/ato de fala, código/fala, função/estrutura, contexto/mensagem, linguagem/situação, linguagem/homem ou antropologia.
Essas diversas linhas de interesse estão condicionadas “aos vários fatores definidos socialmente, com os quais a diversidade linguística se encontra relacionada” (BRIGHT, apud PRETI 2000, p.16). Em princípio são três: a dimensão do emissor, a do receptor e a da situação ou contexto.
A primeira envolve a identidade social do emissor ou falante (dialetos de classe), e a diferença de fala está relacionada ao nível social. A segunda reside na identidade social do receptor ou ouvinte, exemplificada em vocabulários usados entre subalterno e superior. E a terceira engloba todos os elementos possíveis, restantes da comunicação, exceto a identidade dos envolvidos (PRETI, 2000).
Esses fatores são determinantes na abordagem da diversidade de uma mesma língua, condicionada por fatores extralinguísticos, que podem ser geográficos – variações regionais; sociológicos – variações entre idade e sexo, profissão, nível de estudo, classe social, religião, raça; e contextuais – diferenças causadas por influências alheias ao locutor: tipo de ouvinte, local do diálogo e as relações que unem os interlocutores (PRETI, 2000).
Bagno (2003) oferece uma terminologia que designa com precisão três fenômenos de variação lingüística: norma-padrão, variedades prestigiadas e variedades estigmatizadas. Assim, entre as variedades mais prestigiadas e as mais estigmatizadas, fica anteposta uma zona intermediária, em que umas influenciarão as outras constantemente. A norma padrão permanecerá no alto, exercendo uma influência simbólica, que desaparece tanto mais nos afastamos das camadas sociais privilegiadas.
Nesse contexto que interliga prescrição da norma, fala coloquial e classe social, residem as “batalhas” comunicativas geradoras do suposto “caos” e do preconceito linguístico (BAGNO, 2003). Entendê-las se faz necessário para que esses conflitos sejam, se não extintos, ao menos amenizados. Para tanto, entender a formação, as raízes do surgimento dessa língua, é imprescindível. Uma forma de obter esse conhecimento é a análise da Literatura.
A Variação Linguística na Literatura
Richard Dawkins (2007), analisando os fatores causadores da variedade na linguagem, postula que:
A linguagem evolui de forma quase biológica, e a direção que a evolução toma não parece ter sido predefinida, de um modo bem parecido com a deriva aleatória. Ela é transmitida por um análogo cultural da genética, mudando lentamente através dos séculos, até que no final várias linhas tenham divergido, chegando ao ponto da ininteligibilidade mútua. É possível que parte da evolução da língua seja guiada por uma espécie de seleção natural... (DAWKINS, 2007, p.250)
Partindo desse pressuposto de transmissão cultural da linguagem, é possível entender a característica da diversidade na fala brasileira, que, entre outros fatores, muito se deve à condição de território colonizado. É preservado, ainda hoje, o modelo hierarquizante da fala, marcado pela cultura senhorial, em que as relações sociais são sempre estabelecidas entre superiores e subalternos (BAGNO, 2003).
A escrita do português do Brasil documenta a vigência do modelo português até o século XIX. A partir desse período, registra “tentativas” de criar padrões próprios, que acabaram por se cristalizar (PINTO, 1992).
Os escritores lançam mão da oralidade, expressa em seus escritos, evidenciando, na ausência de documentação, a progressão da variante brasileira em relação à portuguesa (PINTO, 1992).
Os primeiros a reagirem contra o purismo arcádico e a tirania gramática foram os escritores românticos. Suas obras revelaram um estilo mais dado ao coloquial, influenciado pelo estilo da redação dos jornais, marcados pela linguagem do cotidiano da imprensa (PRETI, 2000). Esses homens foram os primeiros a sonhar com a variante brasileira e a reivindicar o direito de uma linguagem literária própria.
Antes disso, os escritores, descendentes diretos de portugueses e estudantes formados em Portugal, refletiam os ideais da cultura da metrópole, eliminando os traços brasileiros de seus escritos, tachados de “provincianismo” (PINTO, 1992). Essa infiltração da variante brasileira ocorreu gradativamente, começando nos gêneros de menor prestígio, “em que o popular se justificava pelo exotismo” (PINTO, 1992, p 20).
Todavia, a independência, a abolição da escravatura e a instalação da república, foram decisivas para que viessem à tona problemas brasileiros, entre os quais, o da língua. Também o nacionalismo favorecia a crença no antilusitanismo e dava a entender que uma nação livre precisava ter língua própria. Nesse contexto, a visão ideal e romantizada dos fatos ia tecendo uma literatura no mesmo sentido (PINTO, 1992).
A necessidade de língua própria gerou a busca de palavras que identificassem a variante brasileira. Dessa forma, surgem os regionalismos, organizam-se glossários e dicionários de brasileirismos. Agregando informações a esse material, foi comprovada a existência de uma língua diferente da falada em Portugal e se constituiu a norma brasileira – advinda da Literatura.
Entre os escritores que mais documentaram os aspectos da variante brasileira está José de Alencar, também notabilizado por polemizar a esse respeito, permitindo que se desse a conhecer o pensamento da intelectualidade da época (PINTO, 1992).
Corpus de Análise
ANÁLISE DA VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
Colocação Pronominal Livre
Preti (2000) postula que, em todos os livros de Alencar, existe uma “atitude falsa” nos diálogos, seja pelo uso de alegorias filosóficas, que não estão de acordo com o nível sociocultural das personagens, seja pelo acúmulo de palavras supérfluas que fogem à realidade oral da língua. Essas características são apontadas por Pinto (1992) sob a denominação de “irregularidades gramaticais”, por omissão ou excesso de pronomes associados a verbos, exemplificadas nos trechos a seguir:
“– A modo que estou conhecendo ao senhor? Acudiu ele.
– Pode ser, chamo-me Manuel Canho, para o servir.
– Outro tanto; Francisco da Graça, mas todos me conhecem por Chico Baeta, um seu criado. Seu nome não me é estranho. Manuel Canho... De Ponche Verde?
– Isso mesmo.
– Bem dizia eu. Agora me alembro...” (ALENCAR, 1978, P 16).
O mesmo ocorre na narrativa do conto Trezentas onças, de Lopes Neto:
“Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.” (NETO, 2000, p 23).
Interessante notar que o autor usa no mesmo diálogo formas divergentes da colocação pronominal:
“Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
– Então patrício? está doente?
– Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça...” (NETO, 2000, p 24).
No excerto abaixo podemos notar o uso supérfluo de certas palavras, quando analisadas em situação de fala coloquial e entre personagens de baixo nível cultural. Neste caso, tropeiros, peões e domadores de cavalo:
“– A égua já foi amansada, não tem que ver! dizia um da roda.
– Aposto que fugiu há tempos de algum pasto, acudiu outro.
– Também vou para aí. A fúria não foi grande.
– Decerto! Queria-se ver a força da gineta!
– Assim qualquer faria.
– Pois a égua aí está, senhores. Quem quiser que a monte. Se é tão fácil!” (ALENCAR, 1978, p 32).
Notamos o uso desnecessário da preposição para e da partícula de realce se, além da inversão do advérbio aí e do verbo está, comumente encontrado na fala como está aí.
Abundância de Gerúndio
Outro caso de irregularidade gramatical previsto por Pinto (1992), é o uso abusivo do gerúndio, conforme podemos comprovar nos fragmentos abaixo:
“– Eu não escolho nenhum!
– Ora aí está! Disse o Lucas soltando uma gargalhada.
– Qual! Já está fazendo melúrias.
– Meu noivo... Querem saber qual é?
– Então sempre escolhe!
– Ai que já estou me lambendo! (ALENCAR, 1978, p 21).
“Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar...” (NETO, 2000, p 23).
O Léxico
“A riqueza do vocabulário é o índice mais evidente do distanciamento entre a língua literária e a língua falada” (PINTO, 1992, p 27). Os autores acabam usando a sua linguagem própria, transcrita na rica sinonímia empregada, que faz com que não se repitam as mesmas palavras.
Nos trechos a seguir, observe as diferentes denominações dadas pelo autor à palavra cigarro:
“... E num repente lembrei-me bem de tudo. Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação da roupa nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra a guaiaca e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma última tragada.” (NETO, 2000, p 25).
“E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.” (NETO, 2000, p 28).
José de Alencar, no romance O Gaúcho, faz uso constante de palavras da língua espanhola em substituição às da língua portuguesa:
“–Talvez seja ela tão chiquita, D. Romero, que um homem não a possa montar.
Chiquita é uma palavra emprestada do castelhano e “significa pequenina” (NUNES, 1982, p 115). Porém o autor atribui-lhe outro significado, relacionado ao contexto da conversa e expresso na nota de rodapé da página: “caprichosa” (ALENCAR, 1978, p 26).
Simões Lopes Neto também utiliza palavras castelhanas. Notadamente nestes trechos de O mate do João Cardoso e Deve um queijo:
“– Bueno! são horas, seu João Cardoso; vou marchando!...“
Bueno é uma interjeição do espanhol platino e “significa bom, bondoso, está bem, muito bem, perfeitamente” (NUNES, 1982, p 75).
“– Chê! ... pronto! Sirva-se!”
Chê é vocativo correspondente a tu ou usted (NETO, 2000, p 63). Nunes (1982, p 109) afirma que a palavra equivale a tu aí, ou tu simplesmente. Pronuncia-se tchê, à maneira espanhola.
