10/12/12

Convite Mointian

A pedido de minha amiga Fátima, divulgo:

29/10/12

Jugo


Sobre a mesa, uma garrafa pela metade e as chaves. Pela janela, uma estrada imensa. Teve ímpetos de velocidade. Seus olhos fechados partiram primeiro. Imaginou o vento batendo nos rosto e os pés sem sapatos. Tomou a decisão. O desejo não combina com a espera. Depois da porta, nada mais que o prendesse. A estrada pertence aos livres. Deu ignição à máquina. Dessa vez, ela partiria primeiro. Sempre um passo à frente dos seus olhos. O vento batia no rosto. Era realidade agora. No banco do carona, imagens distorcidas do líquido que restou na garrafa. Uma só mão no volante para o último gole. Seus pés, antes leves, agora pesavam como dormentes. Eram o seu próprio jugo. Quis livrar-se deles. Jogou a garrafa pela janela. O carro, no precipício. A estrada sempre foi para os livres (de espírito também).

20/10/12

Rua dos Poetas, Calçada da Fama e Antologia Ruadospoetas III- discurso



Senhoras, Senhores, Autoridades presentes,
Boa Noite!

Conta o mito que, numa noite de primavera como esta, milênios atrás, Zeus, o deus soberano entre os deuses gregos, desde o alto do Olimpo, entediava-se observando o vácuo. Decidido a tomar uma atitude, sob violenta inspiração, criou o universo e, para habitá-lo, o homem. Ansioso por comemorar o feito grandioso, reuniu todos os demais deuses numa festa, apresentando-lhes o que chamou de poiesis- palavra grega que significa pôr em prática ou em ação uma ideia, poiesis significa “criação”. Diante de tantas coisas magníficas, foi notável o entusiasmo dos deuses, que aplaudiram e ovacionaram o soberano criador. Entretanto, um deles, o mais observador entre todos, percebeu que havia um defeito na obra, que poderia pôr em risco grande parte do trabalho. Dirigindo-se a Zeus, o conviva falou: Zeus, vossa criação é infinitamente bela e, certamente, também é prova de vossa superioridade infinita sobre todos nós. Porém, “esse homem” que criaste, tem a memória avariada; lembra-se de tudo quanto é coisa: a final do campeonato de futebol, o nome dos jogadores do time escalado, o dia que a sogra vem visitar a filha, as compras, as contas, os deveres, os horários... Mas se esquece de uma coisa fundamental: O homem se esquece de quem ele é!
Zeus, percebendo a gravidade do defeito, pois essa era uma avaria que poderia levar o homem à morte, depois de muito pensar em uma solução, resolveu sair em busca dos mais virtuosos dons e criar, a partir dessas qualidades, aquelas a quem chamou de “musas”. As musas foram, então, enviadas para a Terra com a missão de tocar uma classe especial de homens, os poetas, que inspirados por elas, serviriam ao propósito de lembrar a todos os homens de quem eles são.

Nesta noite de primavera, milênios mais tarde, nasce a terceira Antologia da Rua dos Poetas, sob a proteção divina, em momento de festa, durante a 14ª Feira do Livro, ao ar livre e junto do povo. Neste cenário criativo e tão propício à poesia, trinam as liras dos sete novos poetas santiaguenses homenageados na rua: Laurindo Ramos, cuja poesia foi escrita para nos lembrar de que é possível vencer todas as batalhas da vida: as batalhas da juventude e do amor, as batalhas da maturidade e do trabalho e as batalhas da velhice e da solidão; Moysés Antunes Vianna, vindo à Santiago para nos lembrar de que somos mais dignos se honramos o nosso trabalho e lutamos, sem demagogia, pela justiça; Valentim Pinto Flores, que com a música de seus versos nos lembra do respeito pela tradição gaúcha; Osvaldo Siqueira, que na simplicidade de suas rimas, lembra-nos das coisas mais importantes: a efemeridade da juventude, o amor a Deus, o respeito aos pais, o valor da amizade e a santidade da família; Nilton Carlos Mesquita, poeta nascido para nos lembrar de que o humor está integrado às lendas que fazem parte da nossa cultura e povoam nosso imaginário com a alegria necessária para levar adiante a vida; Nilsa Terezinha Fortes Dorneles, poetisa que nos lembra da coragem e do valor da mulher gaúcha e, Cacio Machado da Silva, cuja poesia filosófica e inquietante, faz com que jamais esqueçamos de que as perguntas, muitas vezes, são mais importantes do que as respostas.
A coletânea Ruadospoetas III, assim como as duas outras que a precederam, é fruto, portanto, do legado literário desses filhos de Santiago, nascidos aqui ou, por amor, aqui radicados. De tiragem destinada à distribuição gratuita, principalmente às escolas, bibliotecas e outras entidades culturais, este livro reafirma o propósito de dar a conhecer a história da gente de Santiago, cantada por quem nela viveu e se inspirou e de lembrar-nos que é nossa a responsabilidade de perpetuar essas memórias e de aperfeiçoar a herança criativa que recebemos de nossos antepassados.
A esse extraordinário trabalho, obra de criação, projeto, empreendimento- “poiesis”, portanto, nas mais corretas acepções tomadas pelo verbete grego, idealizado pela Prefeitura Municipal de Santiago, por intermédio das Secretarias Municipal de Educação e Cultura e do Planejamento, contando com a colaboração do dr. Valdir Amaral Pinto, que colocou à disposição sua biblioteca para pesquisa, e Margarete Viero, artista plástica que produziu a capa, juntamos as palavras de Laurindo Ramos:
                                   O tempo contas dará
                                   do que promete o momento.

Erilaine Perez- organizadora da Antologia Ruadospoetas III

19/10/12

1º Lugar no Concurso "Conte um Conto"



Eternas Primaveras

Era quase mês de setembro. Novamente a escuridão seria lavada pela inebriante onda primaveril. Rosas e jasmins encheriam as janelas com seus pendões multicoloridos e perfumados. As nuvens cederiam o espaço para o rei sol que, desde o seu trono azul celeste, despejaria sobre os mortais, dádivas de calor em forma de raios de luz... Elisa, mais uma vez, seria atormentada pela repetição daquele que se tornara o cenário de suas mais cruéis lembranças.


Era inevitável a angústia. A menos que transmigrasse para outro hemisfério, diferente meio não haveria para interromper a chegada da primavera. Toda a claridade comum a essa época, já principiava, escorrendo líquida, mesmo pelos vãos das portas eternamente cerradas. Como uma donzela de contos fantásticos ela sentia que os próximos meses seriam pesados demais para suportar a clausura a que sua alma fora submetida. Pela janela, vigiava os umbrais do jardim, cobertos por uma imensa camada de hera, que parecia tecer uma malha grossa, urdida por estranhos nós que a prendiam e sufocavam.

Tudo acontecera há treze anos. Durante os seis primeiros meses de seu casamento, Elisa vivera aquilo que poderia ser comparado a mais fiel descrição do paraíso. Desde o vestido de rendas, virginalmente branco, as juras de amor trocadas à hora das núpcias, até a perfeição dos dias que se seguiram... Nada poderia existir que se colocasse entre eles e tamanha felicidade! Na juventude dos seus vinte anos, Elisa contrariava a todos que profetizaram nunca dar certo um casamento com homem tão mais velho: Frederico tinha quarenta e dois anos.

Ansioso por agradar à esposa, o marido apaixonado, contratou uma jovem serviçal para auxiliar Elisa nas tarefas da casa. Iris chegara de um vilarejo, ao norte da província, junto com os calores de dezembro. Há alguns dias havia atingido a maioridade e, sua humilde condição, exigia ocupação que lhe proporcionasse um teto e sustento. Não demorou muito para que a serviçal cativasse com todo tipo de bondades e mimos o ingênuo coração de sua senhora. Em poucas semanas, Elisa não imaginava mais a passagem dos dias sem a fiel companhia de Iris.

Um ano passado da felicidade inicial, Frederico notava que a esposa não conservava nos olhos o viço dos meses anteriores. Cada vez mais magra e pálida, queixava-se de mal estares repentinos e era frequentemente acometida por sonolência perturbadora. Iris tranquilizava-o, dizendo que essas indisposições eram comuns às senhoras e muito bem poderiam ser resolvidas com a administração de remédios caseiros: compressas frias e chás naturais -que já havia providenciado desde o início da enfermidade da amiga e patroa. Entretanto, a situação se agravava e Elisa já não podia deixar o quarto. Seu estado era tão lastimável, que tornava difícil mesmo as rotinas básicas. Foi em vão que Frederico buscou um médico na cidade vizinha. Já era tarde demais.

Aos pés do leito derradeiro, com a triste figura emoldurada pelas folhagens que brotavam à janela, depois de despedir-se do esposo, entrecortada pelas lágrimas e a dificuldade de respirar, segurou, com as poucas forças que lhe restavam, as mãos da incansável amiga. Iris, aproximando os lábios dos ouvidos de Elisa, sussurrou-lhe algumas palavras. A enferma, num átimo de dor e espanto, abriu a boca e cerrou os olhos para sempre.

Frederico escreveu para Iris uma carta-testamento, deixando-lhe tudo o que possuía, antes de cometer suicídio na manhã seguinte. Àquela filha ilegítima, coube dar enterro aos corpos e vingar todo o sofrimento da mãe que morrera miserável e abandonada nos dias que culminavam com a chegada das primeiras flores. Cerrando os portões do jardim com um enorme cadeado, providenciou que a hera tomasse o caminho das grades, impedindo totalmente a visão para o lado de fora. Parada, frente aos umbrais, amaldiçoou as almas: “Que jamais possam se reencontrar e sentir o refrigério da liberdade, enquanto existirem primaveras”.